No one is what he seems to be!

No one is what he seems to be!

Get ready for a breathtaking adventure, full of mysteries, twists and betrayals. No one is what he seems to be!

Read the first chapters of the book:

Sorry, this edition of the book is in the Portuguese language only.

O despertar do eleito

Capítulo 1

Hoje – Egito.

Odia já passa da metade, o sol forte queima a areia do Saara, no Egito. James Johnson, famoso arqueólogo americano, comanda uma equipe em um grande sítio arqueológico, patrocinada pelas indústrias Kalccune, famosa empresa do ramo tecnológico.

No grupo, integrantes conceituados de diversas partes do mundo se revezam nos enormes buracos, cavados cuidadosamente e demarcados com fitas brancas. Escavam, investigam, separam peças, limpam a área com paciência e cuidado, à procura de objetos históricos e significativos.

Alguns desses buracos são ligados por túneis. Em um deles, cerca de 30 trabalhadores se ocupam em funções diferenciadas, trabalhos que duram dias e noites, sob calor e frio, sol ou chuva, até que algo acontece.

– Achei, achei, por tudo que é mais sagrado, eu achei….

Miguel Vieira, um português nascido em Lisboa de quase dois metros de altura, de olhos grandes e cabelos raspados, magérrimo e desengonçado, grita, corre e tropeça por onde passa, sem se importar com nada. Chuta o que está na frente até a ala central do túnel, onde os trabalhadores para o que estão fazendo para acompanhar a chegada daquele homem, que corre com as mãos para cima, segurando o que parece ser uma pequena caixa.

É um baú. O artefato brilha demais, apesar de estar enterrado há séculos. A cor vibrante, dourada, contrasta bastante com o local escuro, apenas iluminado por algumas lamparinas a gás. Na parte superior do baú, alguns numerais egípcios.

– Sai da frente, sai, com licença, vamos, sai…

Apesar do sobrenome, Denis Muhlbauer era brasileiro, e um dos melhores amigos de Miguel. Ele abre espaço entre os curiosos e se agacha ao lado do português. Pelo que Denis entendia, aquele número egípcio significava um três. A caixa era pequena, mas era única, um presente dos céus, como sussurrava a maioria, em várias línguas. Bem trabalhada, com ótimo acabamento, tinha cerca de 20 centímetros de largura e 10 de altura, mas pesava como se tivesse meia tonelada ali. Miguel parece uma criança que acaba de ganhar um brinquedo no Natal. Olha sorridente para todos ao seu redor e se vangloria pelo achado.

Miguel não para de falar e comemorar. Aliás, isso era normal naquele lusitano de quase 30 anos. Ele era animado e um dos poucos que fazia amizade com todos, se divertia com qualquer coisa e fazia rir toda a expedição, com histórias mirabolantes da terra natal. Um contador de casos para fazer inveja a Forest Gump.

– Não acredito… Meu Deus. Mais de 100 homens nessa expedição, e eu, que nem sou tão experiente assim, acho o primeiro treco realmente de valor. Vamos lá, falem… Eu sou demais, não sou? Olhem, olhem isso, só pode ser ouro puro. Uau, não acredito. – Grita, empolgado.

Em pé ao lado do português, Denis larga as ferramentas, tira o pedaço de pano amarrada na calça e passa na testa para enxugar o suor. O calor naquele túnel era de fazer inveja ao deserto ali fora. Sem camisa, com a calça e o corpo todo sujo por causa das escavações, Denis nem parece o brilhante arqueólogo formado numa das mais conceituadas universidades dos Estados Unidos. A camisa extra, amarrada na cabeça, impede que o cabelo loiro, um pouco comprido e despenteado, caia no rosto, dando uma impressão ainda mais largada ao estudioso. Denis se aproxima para investigar melhor o objeto encontrado pelo amigo.

– Peraí, Vieira, me mostra isso direito… Calma, não vou arrancar da sua mão. Só me mostra… Cara, realmente, isso parece ser importante. Vale a pena acordar o preguiçoso do Johnson pra ver isso aqui.

– Vale a pena? É lógico que vale, Denis, pode deixar que eu mesmo vou lá mostrar isso a ele. Cara, isso é fantástico, e fui eu que achei… Uhu… Ok, da licença, da licença, o mestre da escavação está a passar – e lá vai Miguel, andando com um ar soberbo e a passos largos. Abre caminho entre os colegas, direto para a saída, enquanto todos continuam parados e comentando o acontecido.

– Ei, peraí, Vieira, eu vou contigo. Quero ver a cara do Johnson ao olhar para essa coisinha.

Denis se apressa e corre para seguir o amigo, que já subia numa das escadas para a superfície, com destino à tenda de James Johnson. Denis alcança o amigo e pula para tentar passar o braço pelo pescoço dele. Os dois brincam animados e passam tranquilamente no meio de outras pessoas, que sem se importar com os amigos, continuam trabalhando. O baú refletia ainda mais com a luz solar. Era lindo de se ver. Os dois estão a poucos metros da tenda, quando…

BUUUUM

Uma grande explosão no túnel que Denis e Miguel saíram levanta uma grande nuvem de areia, poeira e fumaça. Do lado de fora, as pessoas caem, correm, gritam, choram e clamam em diversas línguas, até que…

BUUUUM

Uma segunda explosão. Em outro túnel perto dos dois, segundos depois da primeira, cria ainda mais pânico entre os trabalhadores. Denis voa para o chão com o impacto da explosão, enquanto Miguel sai correndo assustado.

BUUUUM

Uma terceira explosão não deixa dúvidas na cabeça de Denis. Aquilo não parece ser por acaso.

“Os três principais túneis em chamas, sem chance de sobreviventes, e agora… tiros? Não pode ser. Tiros aqui?”

Mas era. Por mais improvável que poderia acontecer. Denis levanta a cabeça, suja de areia, apenas para ver corpos que caem sem vida ao redor do acampamento. Denis pensa em correr, mas a perna direita não responde. Ele olha e perceber que um pedaço de ferro estava atravessado perto do joelho.

“Levanta, droga. Não deixa um estilhaço te prender aqui pra morrer”.

Novamente, ele se esforça para sair do chão. Abafa um grito de dor quando apoia o pé direito para se levantar. Mais tiros são disparados e mais pessoas caem enquanto tentam se salvar. Denis está no meio de todo aquele caos e olha assustado e desnorteado para aquele massacre. Ele vê Miguel, que corre na direção dele e grita algo. O que seria? Impossível escutar em meio ao pânico geral e aos tiros de metralhadora e revólveres. Ele parece querer dizer algo importante, mas com todo aquele barulho, é impossível entender.

Miguel joga o baú na direção de Denis segundos antes de tomar um tiro pelas costas. O atirador, como a maioria, usa máscara e acabara de sair de uma das tendas. Logo após matar o português, ele se vira e corre para outra tenda. Denis até pensa em correr alguns passos e pegar o objeto lançado pelo amigo, mas um tiro no ombro, de outra direção, o faz mudar de ideia.

Ele age por instinto. Esquece o baú, vira e corre na esperança de que o próximo tiro não seja fatal.

O tiroteio parece não ter fim. Para onde Denis olha, há corpos, pessoas que sangram sem parar, homens encapuzados que miram nos alvos mais próximos. Denis não quer fazer parte de uma contagem de corpos e continua correndo, sempre tentando manter distância de qualquer pessoa armada. A perna e o ombro não param de sangrar.

“Um buraco? Ótimo. Alguém deve ter começado a cavar aqui hoje, é pequeno, mas dá pra tentar me esconder” pensa.

Quando se aproxima mais do buraco, do tamanho de uma piscina de uma casa num subúrbio qualquer, ele escorrega e cai. Ao se recompor, percebe que não foi o único a ter aquela ideia. Há ali mais duas pessoas. Mas nenhuma viva.

Definitivamente, mais duas vítimas daquela chacina.

Denis não sabe o que fazer. Pensa em gritar por ajuda, mas isso pode atrair aqueles assassinos.

Ele ouve vozes.

– Ei, você, olhe para aquele lado, não deixe ninguém vivo, escutou? Olhe naqueles buracos lá perto também. – Alguém ali em cima recebe ordens específicas. E Denis agradece em silêncio pelas aulas de francês da faculdade.

“Francês? Esses malditos são franceses?” pensa.

Mas a hora não era para raciocinar. Era para se salvar. Mas como? Ele não consegue escalar o buraco tão depressa e fugir dos assassinos. Não com a perna e o ombro daquele jeito.

O francês se aproxima. Olha em um dos buracos.

Nada.

Olha em outro. Ouve apenas um apelo pela vida, que é ignorado. Três tiros. Mais um morto.

Olha no terceiro buraco e grita:

– Ei, chefe, nada no primeiro buraco, três mortos no segundo e três mortos nesse terceiro. Tudo limpo.

Coloca o rifle para descansar no ombro e se distancia daqueles três buracos.

Meia hora se passa até Denis ter certeza de que o nervoso realmente tinha diminuído. Os tiros e gritarias cessaram aos poucos, quase cinco minutos depois do momento em que ele resolveu se fingir de morto e ficar embaixo dos dois corpos que ali estavam, como se tivesse sido o primeiro a ser alvejado. O sangue do ombro, que já está em quase toda a pele suja, se mistura com a calça manchada pelo sangue do joelho direito. Tudo aquilo ajudou a manter a ilusão que já estivesse morto logo quando aquele francês olhou para o buraco.

Foram momentos agonizantes ali dentro, quieto, esperando tudo acabar. Quando a inanição toma conta, percebe que é hora de encarar a superfície, seja lá o que houvesse lá.

Com dificuldade, Denis escala os dois metros que o separam da superfície. A dor no braço e na perna já não era importante. O melhor é continuar vivo.

Ao sair daquela quase cova, a única coisa que Denis enxerga é areia. Não há vivos ou feridos, não há tendas, não há marca alguma do que aconteceu. As fumaças em todas aquelas escavações tinham se dissipado. O clima ainda é pesado, afinal, ali é um verdadeiro cemitério, mesmo sem os mortos.

“Deus” pensa, “Não pode ser. Quem faria isso? Por quê? Cadê tudo? Todos?”.

O relógio marca 18h50, a areia do deserto já cobriu qualquer vestígio de sangue. O acampamento fica a quilômetros de qualquer cidade, nenhum curioso ou autoridade realmente deve ter ouvido o que aconteceu ali. O Jipe com alimentação e remédios chegará somente em dois dias.

Ele não pode esperar tanto tempo. Aqueles homens podem voltar a qualquer momento. Mesmo mal, ele tem não pode abusar da sorte. A melhor coisa é chegar na civilização e trazer as autoridades para investigar aquela chacina.

Vai ser uma longa caminhada até a cidade mais próxima.

Capítulo 2

Dois dias depois, Denis acorda sem saber muito bem onde está. Os olhos demoram em se acostumar com a luz e o ambiente.

Denis tenta se mexer, mas… Fios?

Aos poucos ele percebe que está em um leito de hospital. O quarto, todo branco, com apenas um sofá, TV e aquela cama, sem contar os aparelhos, não deixa dúvida. O local não era grande, mas espaçoso para o ir e vir dos médicos. A cortina na janela está semiaberta, o que dá uma visão privilegiada para as ruas e a agitação que acontece fora do hospital. Denis percebe o sol escaldante que sempre cobre o Egito e começa a tentar colocar em ordem os pensamentos. Tenta lembrar como chegou lá, mas coloca a mão na testa e range os dentes. A dor de cabeça fora do comum impede qualquer esforço.

– Bom dia, estrangeiro. Se sente melhor hoje?

Com o reflexo ainda lento, Denis demora pra olhar a porta aberta e perceber o médico entrando no quarto com a prancheta na mão. O arqueólogo tenta acompanhar o monólogo do médico enquanto ele arruma os aparelhos e analisa a ficha. Aquele jaleco indo de um lado para o outro, hipnotizando o olhar de Denis, aumentava ainda mais a dor de cabeça.

– É, estrangeiro, você nos deu um grande susto. Deu sorte de encontrar um grupo viajando no meio do deserto. Dificilmente alguém anda por aqueles lados à noite. E agradeça ao seu Deus por estar vivo, você perdeu muito sangue. Se eles não tivessem trazido você para o Cairo o quanto antes, você não iria aguentar. É, parece que tudo está sobre controle, você não corre mais risco de morte. Parabéns. Descanse e se precisar de algo, toque essa campainha atrás de você. – Explica o médico, com um sotaque americano meio enrolado.

Denis tenta entender tudo, mas os pensamentos se perdem nas palavras do doutor.

“À noite? Ótimo, até que eu andei bastante. Cairo? Legal, Cairo é bom, preciso avisar alguém sobre o que aconteceu. Preciso levantar”.

– Ei, ei, ei, estrangeiro… Calma lá. Você ainda não está em seus melhores dias. Fica deitado aí.

– Doutor… Fala minha língua? Português? Não… aí… tudo bem… inglês… aí… Doutor… preciso… da… polícia…morte… aí, minha perna…meu ombro.

– Seu inglês é pior que o meu, estrangeiro, mas tudo bem. Você está delirando, calma, vamos descansar, é melhor. Qualquer coisa, já sabe. Campainha, está bem?

Com uma mão na nuca e outra no peito de Denis, o médico o deita suavemente e puxa o lençol até cobrir todo seu paciente. Antes que Denis pudesse dizer algo, ele vai embora, com a prancheta embaixo do braço.

“Preciso sair daqui, ir à polícia, sei lá. Eles já devem ter visto tudo que aconteceu, tenho que saber o que houve… Opa, tontura, melhor não levantar agora, deixa pra depois”.

Denis fecha os olhos e coloca a mão na cabeça. Aquela dor insuportável não para nunca. Ele relaxa e adormece logo em seguida.

A lua já ilumina o céu do Cairo. Denis acorda aos poucos, sem saber por quanto tempo dormiu. Passou mais um dia? Ou dormiu apenas a tarde toda? Pelo menos a dor de cabeça havia passado e ele se sente mais revigorado. A perna e o braço não doem tanto quanto antes. As ideias já fazem mais sentido e ele não está tão devagar quanto no momento do encontro com o médico. Tanto que percebe rapidamente o barulho de passos, que quebram o silêncio do corredor do hospital e chegam até à porta do quarto.

“Médicas não usam salto alto? Usam?” pensa.

A melhor coisa é virar pro canto e fingir que está dormindo. Talvez aquela mulher nem viesse para o quarto dele, talvez passasse direto, mas algo em cabeça dele diz para tomar cuidado.

Com um olho fechado e o outro semiaberto, Denis, deitado, consegue enxergar a porta que se abre um pouco. Um vulto parece estudá-lo com bastante precaução, a ponto de evitar fazer barulho ao se esquivar pela porta encostada. Quando o vulto chega perto, Denis pode notar, com a ajuda da luz que vinha pela janela, a presença de uma mulher linda, maquiada, de vestido longo, que parece ter saído de uma festa de gala. Mas aquele jaleco quebrava um pouco o estilo garboso daquela loira fatal de quase um metro e oitenta.

A incerteza reaparece em Denis. O que aquela mulher estaria fazendo lá? Ele continua inerte, fingindo dormir. Ela se aproxima calmamente, e por segundos admira o enfermo na cama. Abre a bolsa e tira uma seringa com um líquido azulado.

– Eu sinto muito. Você até que é bonitinho, mas eu tenho que fazer isso. – Sussurra a mulher no ouvido de Denis.

Rápido como uma flecha, Denis abre o olho e surpreende a mulher. Ele agarra a moça pelo pescoço e a puxa para a cama. A adrenalina faz Denis esquecer o ombro ruim, pois se mexe e coloca a outra mão na boca dela, impedindo qualquer direito de resposta.

A seringa voa para o chão. Denis consegue se sentar, ainda segurando a mulher, e termina de imobilizar a intrusa.

– Qual é a sua, hein? – diz, baixinho, perto dela – Entendi muito bem seu francês, gracinha. Você quer me matar é? Por quê? Você está com aqueles assassinos né? Fala alguma coisa, droga.

Ao tirar a mão da boca da misteriosa mulher, Denis escuta o que não queria.

– Você já era. Mais gente está vindo. Eu já dei o sinal – diz a mulher, sorrindo.

Antes de conseguir qualquer outra resposta, um homem forte e negro chuta a porta e saca uma arma. Denis rola pra fora da cama na hora e puxa a mulher com ele. Todos os fios pelos quais Denis estava ligado são arrancados bruscamente. Os aparelhos caem no chão, fazendo bastante barulho.

Denis segura o grito de dor.

Livre de Denis, a mulher grita em francês para que o homem não atire. Em vão. Ele apenas mira e descarrega o revólver.

Pelo menos três tiros acertam o peito da mulher, que morre na hora. Denis, atrás dela, sai ileso.

– O que está acontecendo aqui? – grita Denis.

Pelo corredor, médicos correm para saber o motivo da balburdia no hospital. O atirador se vira, saca outra arma, joga a vazia no chão, e atira nos médicos. Dois deles morrem e outro pula dentro de um quarto para se salvar.

Agora o pânico é geral pelo corredor.

O atirador volta a atenção para o quarto. Quando se vira para terminar o serviço, Denis acerta um pesado aparelho no rosto do homem, que cai no chão. Denis pula por cima dele e corre, mesmo mancando, no meio de outros pacientes e médicos. O homem negro se recupera aos poucos, balança a cabeça, segura novamente a arma, mas percebe que ainda está zonzo para mirar e atirar. Com a vista embaçada, enxerga Denis correndo desesperado para a saída de emergência. Ele se levanta e vai atrás do arqueólogo.

Denis abre a porta das escadas e desce pulando de três em três degraus, com a respiração ofegante. Percebe a afobação tarde demais quando não consegue puxar o ar. E a perna volta a doer. O ombro não parece ser um problema tão grande quanto aquela perna, que começa a sangrar novamente…

Ele ignora a dor, e em meio ao caos em todo o hospital, consegue alcançar a saída. Já no meio da rua, com aquela típica e ridícula camisola de hospital, sabe que logo a polícia iria chegar e percebê-lo ali. Ele para e olha para os lados, sem saber pra onde correr. Quem passa na rua acha graça ou estranha aquele homem com um ar desesperado.

Alguém agarra o braço de Denis. Ele vira rapidamente tentando se esquivar.

– Calma. Sou eu. O doutor Al-Berek. Conheço você. Estava cuidando de você hoje cedo, esqueceu? O que faz no meio da rua, seu maluco?

Denis reconhece o médico e fica mais aliviado.

– Por favor, doutor. Há um maníaco lá dentro. Atirando em todo mundo. Ele quer me matar.

Al-Berek olha para o hospital e percebe o corre-corre de policiais para dentro do prédio e de enfermeiros e pacientes para fora dele.

– Vem, me segue, deixei meu carro aqui perto. – O médico diz.

Denis apenas consente com a cabeça. Os dois correm até o carro, e Al-Berek deixa o local e acelera pelas ruas da cidade.

– Talvez eu me complique por te dar carona – o médico fala enquanto dirige e olha por todos os espelhos, preocupado. Denis balança o corpo pra frente e para trás, tentando respirar fundo e se tranquilizar. – Mas não poderia te deixar lá perdido. Você realmente tem sorte, estrangeiro. Ei, sua perna voltou a sangrar é? Estanque com uma camiseta minha, atrás do seu banco. Eu cuido de você chegando em casa.

Denis está confuso demais. A perna dói, e é melhor fazer o que diz o médico. Ele se apoia no banco e vira para pegar uma camiseta, mas percebe uma coisa estranha.

Uma tatuagem na nuca de Al-Berek, bem pequena, uma espécie de hieróglifo.

Denis se lembra na hora de ter visto um hieróglifo parecido no braço forte do homem negro no hospital. E percebe mais. A mulher bem vestida, assassinada pelo homem negro, também tinha uma tatuagem daquela na mão direita.

Ele pega a camiseta, volta a se sentar no banco como se nada passasse pela cabeça dele e, como o médico mandou, estanca o sangramento.

– Hã, doutor, é melhor me deixar aqui. Eu me viro, obrigado.

– Que isso, estrangeiro, você está sangrando, eu te levo para casa, cuido de você lá, e depois você parte pra onde quiser.

-Melhor não, você me ajudou bastante. Pode parar aqui, é sério.

Denis tenta abrir a porta, mesmo com o carro em movimento, e força ainda mais a maçaneta ao perceber que está trancado ali.

– Calma, estrangeiro, não precisa ficar nervoso. Calma.

Não ia adiantar ficar de conversa. Denis joga o corpo em cima de Al-Berek e consegue destrancar a porta. O médico até tenta segurá-lo, mas ele já abre o lado do passageiro e pula para fora, rolando no meio da calçada.

Enquanto se levanta, ouve a brecada brusca. Carros buzinam e desviam. Denis sabe que era AL-Berek parando o veículo. Ele não o deixaria vivo também. Sem olhar para o carro, Denis sai correndo. Apenas ouve o médico, fora do carro e encostado na porta, amaldiçoá-lo em uma língua estranha.

“Ótimo… E agora? Preciso sair desse país o quanto antes. Não dá mais pra confiar em ninguém aqui. Meu Deus. Só tem uma pessoa que pode me ajudar, só espero chegar vivo até lá”.

Capítulo 3

DOIS DIAS DEPOIS

Nicholas está parado na frente do computador há muito mais tempo que o normal. Ele precisa de uma boa história, mas as ideias lhe fogem à cabeça. Ele olha para o calendário à esquerda da mesa e não consegue parar de pensar no que aquele dia representava para ele.

Completava um ano do acontecimento que mudou a vida daquele jornalista para sempre.

Ele não para de lembrar de todo aquele sofrimento, mas sabia que mergulhar no trabalho era a melhor coisa a fazer. Nicholas ama aquela profissão, sempre tentou inúmeras coisas na vida, mas era mesmo no jornalismo que se sentia realizado.

Escrever, escrever e escrever. Sem parar. A melhor coisa a fazer.

Dia vinte e seis de agosto, exatamente um ano atrás, uma falha mecânica em um avião que voltava de Los Angeles tirou a vida de cento e trinta pessoas, entre elas, os pais de Nicholas. Uma perda que ele não consegue superar.

O jornalista fecha os olhos e se concentra, espera algo que o inspire a começar seu texto, afinal, o chefe era bem rigoroso com as datas de entrega das matérias, e ele não tinha nenhuma até o momento.

Nicholas respira fundo, solta o ar e volta a respirar profundamente. Começa a entrar num mundo particular. Esquece de tudo e se sente sozinho, na busca de alívio para aquele momento e alguma luz para guiá-lo pelas linhas desconhecidas daquele texto. Não dura muito até ele abrir os olhos por um segundo e lembrar onde está.

O barulho e a bagunça na redação do maior jornal de São Paulo, o “Foco da Notícia”, trazem Nicholas de volta a realidade.

Aliás, Nicholas adorava aquele clima. Também, só podia gostar mesmo. Afinal, só para chegar ao jornal já é uma emoção. Pegar a Marginal Tietê lotada de carros, desviar de motoboys malucos, parar num estacionamento bem suspeito e andar e andar até a ponte do Limão. Dentro do prédio, mais agitação. Pessoas que conversam e andam de um lado para o outro, tomam café e riem alto. Gritam ao falar no telefone. Nicholas é apenas mais um naquele amontoado de computadores e jornalistas. Mas na sua mesa, Nicholas se sente o único, e adora tudo aquilo.

O chefe de redação, William Skivinatto, é uma figura pública, mundialmente conhecida, que exigia demais dos subordinados, e de Nicholas em especial, tudo graças as grandes matérias feitas por ele através dos anos. William já ganhará milhares de prêmios em todos seus 30 anos de profissão. Hoje, com 57 anos, considera-se mais maduro do que nunca, e como ele mesmo gosta de falar, ‘sou melhor que vinho, meu faro fica cada vez mais aguçado a cada ano que passa’. E desde o primeiro prêmio de Nicholas, Willian se diz ameaçado pelo melhor jornalista com quem trabalhou.

William queria uma grande reportagem. Queria que Nicholas subisse cada vez mais na vida, e o pupilo não poderia decepcioná-lo, mas não havia pensado em nada até aquele momento.

– Ei, Nick, venha até aqui, rapaz. – William abre a porta da sala e grita para Nicholas, que rapidamente se levanta e corre até ele.

– Fala, Wiski, algum problema?

– Sim – diz enquanto se acomoda novamente na gigante cadeira atrás da mesa – Deus do céu, Nick. Primeiro, por favor, já falei milhões de vezes que pare de me chamar de Wiski – Nicholas havia feito uma brincadeira com William há muito tempo. Percebeu que as primeiras letras do nome e do sobrenome de seu chefe, foneticamente, lembravam a bebida. Mesmo não escrevendo igual, Nicholas achou que seria uma boa piada. Obviamente, William odiou, o que não impediu Nicholas de usar esse nome sempre que encontrasse o chefe. E William sabia que o amigo fazia aquilo para provocá-lo

– E segundo, cadê a minha grande matéria? Quero mais um prêmio pro nosso jornal, Nick.

Nicholas se ajeita na cadeira. Mesmo conhecendo William há tanto tempo, ele ainda era uma lenda no seu meio, e o respeito é muito grande. Nicholas não queria mentir para o mentor.

– Olha, Wiski, não tenho nada em mente, pra ser sincero. Hoje faz um ano que meus pais morreram, não consigo pensar em outra coisa, desculpe.

– Um ano?! – William se levanta da cadeira e se apoia na mesa – Um ano? E me diz uma coisa, o que diabos você está fazendo aqui se não consegue pensar em outra coisa? Filho, de verdade, se você não está com cabeça, vai pra casa. Você não deveria nem ter vindo. Só me faz um favor, assim que você tiver uma grande reportagem, me avisa. Eu boto fé em você, Nick.

– Obrigado, Wiski, prometo te dar uma grande matéria. Mas olha, posso ficar aqui numa bo…

– Nick, vai já pra casa – William o interrompe e apenas levanta o braço para indicar a saída – Sério, Nick, descansa e depois faça um ótimo trabalho. Assim todo mundo fica feliz.

Ao ver que não daria para discutir com o chefe, Nicholas se levanta, agradece e sai da sala, pega todo o material e reconhece que o melhor a fazer é ir mesmo pra casa.

Nicholas estaciona na garagem da residência dele, localizada na Zona Oeste de São Paulo, num bairro tranquilo, como ele sempre gostou. Bem diferente da balbúrdia que era o “Foco”.

Ele para, mas não sai do carro, apenas joga a cabeça para trás e dá um leve suspiro. “É bom estar em casa, quem sabe alguma coisa boa não acontece e eu paro de pensar naquele maldito acidente… e consiga escrever algo”, pensa.

Depois de alguns minutos, decide sair do veículo, abandonando todo seu material, desapertando o nó da gravata e tirando o paletó, enquanto abre a porta dos fundos e acende a luz da cozinha. Sem pensar, joga o paletó em cima de uma das cadeiras.

Abre a geladeira e bebe a água direto da garrafa, fecha a geladeira com o pé, enquanto alcança uma banana na bancada, separa uma do cacho e deixa a fruta na mesa para comer depois. Caminha lentamente até a sala, desabotoa a camisa enquanto anda no escuro. Ele tateia até achar o interruptor da luz no outro lado do ambiente, até que encontra o abajur e puxa a corda para clarear um pouco o local.

-Nick, meu velho, achei que eu ia morrer antes de te dar um olá.

O susto de ver um homem jogado no sofá faz Nicholas derrubar a garrafa em todo o carpete. Nicholas demora para perceber que o homem ali era seu melhor amigo.

– Putz, cara, olha a sujeira. Molhou todo o tapete. Se bem que meu sangue já fez isso também, desculpe – e solta um riso, seguido de um grito abafado de dor. Ele tosse.

– Denis, que susto. O que aconteceu? Você está sangrando? Meu Deus, deixa eu te ajudar.

Com dificuldade, Denis tenta explicar a situação, enquanto Nicholas retira uma toalha do armário e limpa o sangue que escorre sem parar da perna do arqueólogo.

– Desculpa invadir sua casa, mas eu ainda lembro como abrir a janelinha da garagem. Foi só difícil passar, será que eu engordei? Poxa, não parei de suar e sangrar até agora, e engordei?

– Denis, para de graça, estou preocupado com você, o que aconteceu?

– Foi mal, acho que minhas piadas pioram perto da hora da morte, né? Cof, cof… Cara, só poderia confiar em você pra cuidar de mim.

– Mas o que houve? Quem fez isso com você?

– Boa pergunta. Não sei responder. Isso aconteceu comigo há alguns dias já. Se eu te contasse que sobrevivi a um massacre, fui vítima de um atentado, fugi de um hospital, fiz um curativo quebra-galho na casa de uma velhinha que caiu do céu e me escondeu por um dia, subornei um piloto no Cairo, voltei a sangrar, parei de sangrar, sangrei de novo, cheguei em São Paulo e sangrei de novo, e bastante, no seu sofá. Você acreditaria?!

– Calma, calma, muita informação. Como assim? Cairo? O que você fazia lá?

Nicholas se levanta e vai até o banheiro do corredor, pega mais duas toalhas, senta-se em cima da mesa central da sala, em frente a Denis, e continua a limpar a perna do amigo.

– Então, Nick, eu estava em uma expedição arqueológica. Recebi um convite de um dos maiores arqueólogos do mundo, mas ele também morreu. Aliás, acho que só eu sobrevivi, e alguém quer terminar o serviço. Não posso confiar em ninguém.

– Você tá me dizendo que estava naquela expedição no Egito? Onde alguns explosivos foram detonados por engano e todos os trabalhadores que estavam lá morreram? Eu vi isso no jornal.

– Por engano? Jura que é isso que estão falando? Ainda bem que eu saí de lá, cara.

– Calma. Você está delirando demais, Denis. Atentado? Massacre?

– Ei, Nick, você é esperto. Vai entender. Ou será que eu recorri ao cara errado? – Denis sorri e faz uma cara de dúvida para provocar Nicholas.

– Você está achando que foi sabotagem?

– Eu estou afirmando, Nick. Alguém sacaneou a gente. Acho que eles estavam atrás de um baú que um amigo meu achou. Tudo aconteceu logo depois que encontramos aquilo. E eles foram atrás de mim no hospital, Nick. Eles quiseram me matar, até meu médico quis me matar, e ele tinha uma tatuagem igual à da mulher que tentou me matar primeiro. E um cara matou ela. Entendeu?

-Médico? Mulher? Cara? E eles se conheciam? Tinham que tipo de tatuagem?

– Não sei se eles eram amigos. Não deveriam ser, já que um matou o outro, né? Que tipo de amizade é essa afinal? E se quiser eu desenho a tatuagem pra você, mas pode ter certeza, eles estavam atrás do baú. Só pode ser.

– Tudo bem, eu tento descobrir algo sobre isso, mas primeiro você precisa cuidar desse buraco na perna. Pelo visto seu ombro também está machucado, não é? Mas não parece tão sério quanto a perna. Eu vou ligar pra um médico amigo meu, ele vai cuidar de você.

Nicholas se levanta e Denis puxa o amigo pelo braço.

– Não, cara, não chama ninguém, é perigoso. De verdade, eu te explico mais, só que não posso confiar em ninguém mesmo.

– Tudo bem, Denis, você confia em mim, eu confio nele. Pode deixar, você vai me explicando pelo caminho, eu ligo pra ele enquanto isso… Vamos! Eu te ajudo a levantar e a gente vai para o hospital já.

Capítulo 4

Dr. Bohmer, Dr. Bohmer … comparecer com urgência à recepção, Nicholas Collaneri o aguarda.  “

A voz abafada ecoa nas caixas de som dos corredores do Hospital próximo à Avenida Paulista.

– Obrigado, você é um amor de pessoa – Nick agradece à recepcionista, que retribui com um sorriso tímido.

Enquanto bebe água em um copo de formato cônico, Nicholas encosta na parede, bate a cabeça de leve e pensa onde havia se metido. Até que Fábio Bohmer, um médico renomado, alto, de cabelos pretos e óculos, entra no recinto com os braços abertos em direção a ele.

– Nicholas, Nicholas. Nicholas Raulickis Collaneri… Meu bom e velho amigo. Só você pra tirar meu sagrado horário do café, hein?

Os dois se abraçam, com leves tapinhas nas costas, e Fábio pergunta:

– E então, o que houve para você aparecer aqui e me visitar depois de uns… o que… um ano? Alguma nova entrevista?

– Quatorze meses para ser mais exato. Aconteceu muita coisa na minha vida, mas não dá pra contar tudo agora. Aliás, desculpa te procurar depois de tanto tempo, mas eu preciso de sua ajuda, Fábio.

– Ei, amigos não precisam pedir desculpas. São sempre bem vindos. Deu sorte que eu não estava em nenhuma cirurgia, senão vai saber quando você ia conseguir falar comigo, né?

– Bom… Falando em cirurgia, operar, essas coisas… Huum, é melhor você vir mais pra cá… Preciso te contar uma coisa, mas preciso de sigilo, ok?

– Ei, confia em mim, Nicholas… Me conta, o que houve?

Nicholas continua a puxar Fábio para um canto, e resume toda a história, sob o olhar cada vez mais assustado do médico.

– Nicholas – Fábio termina de escutar tudo e afasta o corpo para poder falar melhor – você sabe que não posso fazer isso, é complicado colocar alguém aqui dentro sem que ninguém saiba. Tem toda uma burocracia, tenho que dar entrada nos pacientes, remédios, há relatórios, toda aquela papelada chata, entende?

– Fábio, eu não pediria pra você se não fosse importante. Sei que você está arriscando sua carreira se me ajudar, mas, por favor, eu realmente preciso disso.

Fábio respira fundo, esconde os olhos com a mão para pensar melhor no pedido, abaixa a cabeça e sussurra:

– Droga, eu vou me arrepender disso.

Ele puxa Nicholas para o canto novamente e diz:

– Seguinte, desce para o terceiro subsolo e para perto do elevador de serviços. Lá não tem câmera. Eu vou deixar uma cadeira de rodas lá para você colocar seu amigo. Você sobe para o quinto andar, sai do elevador e pega sua direita. Sala 502, entendeu? 5-0-2. Eu vou estar lá e vou cuidar do seu amigo.

Nicholas sorri, dá um beijo na testa de Fábio, e diz.

– Se você fosse UMA médica, eu juro que te dava um beijo na boca viu, obrigado cara, você não vai se arrepender – ele corre o mais rápido possível para levar Denis ao lugar indicado.

Fábio apenas respira fundo novamente, vira as costas e chama o elevador. “Espero que eu não me arrependa mesmo” pensa.

O elevador chega, Fábio entra, aperta o 5º andar e apenas espera a porta fechar, sem perceber que era observado por um segurança do hospital, grande, gordo e careca, com um crachá torto em um paletó menor do que ele, escrito “Edgar”. O segurança espera a porta do elevador se fechar e sai de posto, entra em uma porta de acesso restrito e retira o celular do bolso, aperta ‘redial’ e diz:

– Alô? Sim, sou eu… O arqueólogo veio pro hospital sim… Sim, sim, pode continuar com o esquema, eu fico de olho neles… Não, sem problemas entrar no prédio, eu libero vocês, mas tem que ser rápido, ninguém pode desconfiar… Certo, obrigado… – E desliga o telefone.

O relógio da sala de Nicholas apita dez horas da noite, aliás, era um milagre ainda apitar, depois de rolar pela escada. Toda a casa de Nicholas está uma bagunça, móveis rasgados e revirados, porta-retratos quebrados, eletrônicos estourados, um verdadeiro cenário de guerra.

Nicholas deixou Denis no hospital e nem sabia o que o aguardava em casa. Ele gira a chave na porta e a abre, mas algo bloqueia a entrada. Nicholas força e percebe que uma das mesas está no meio do caminho.

Ele procura o interruptor. Mexe para cima, para baixo, para cima. A luz não acende, mas o terremoto que sofreu a casa é visível o suficiente para que Nicholas agarre um dos pés da mesa, quebrado, perdido no chão. Alerta, ele começa a andar pelo lugar. O barulho constante do relógio incomoda Nicholas, que agacha, aperta o botão e desliga o aparelho, dando fim ao tic-tac. Logo olha para cima, de onde caiu o relógio. Resolve subir as escadas para ver se encontra mais bagunça no andar de cima.

Pé após pé, Nicholas sobe aos poucos. Falta alguns degraus para chegar ao segundo piso. Meio ressabiado, ele continua. A escada termina. O segundo andar estava pior que o térreo. Nicholas olha para baixo, passa por cima de roupas, caixas, e olha atentamente por onde anda. É a desculpa perfeita para não perceber o ataque de um homem forte, loiro, cabelo raspado, que surpreende o jornalista. Provavelmente, ele veio do quarto.

O homem loiro aponta uma arma para Nicholas. Ele, por instinto, empurra o homem, corre e pula alguns degraus da escada. Cai de mau jeito, mas se levanta rápido, pois ouve as passadas rápidas do rapaz armado indo atrás dele.

Nicholas olha em direção à escada. O homem já havia descido e estava próximo demais. O jornalista não pensa duas vezes. Parte em direção ao algoz e o acerta com a única arma que tinha. O pé quebrado da mesa. O homem desaba no chão. Nicholas se ajoelha em cima na barriga dele e grita.

– QUEM É VOCÊ, SEU IDIOTA, E POR QUE ESTÁ NA MINHA CASA?

Está gostando?

Check out the book details at the store

Amazon Kindle

Add Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *